Histórias
quando o repertório pessoal é forte
É o único modelo com três variantes, e a variante decide se a palestra afirma alguma coisa. A escalada é o que separa uma coletânea de histórias de uma palestra: ou cresce o que você perde, ou cresce o círculo de quem é servido.
preenchido é bloco estrutural · contorno é bloco de apoio · preenchido em vermelho é a virada, o momento em que o significado muda · a largura é o tempo de palco.
MODELO 03 · Histórias
Em uma frase: você anuncia quantas histórias vai contar, entrega cada uma fechada em si, e a afirmação nasce do acúmulo.
Este é o único modelo com três variantes, e a escolha da variante decide se a sua palestra afirma alguma coisa ou não. Leia a seção das variantes antes de começar a montar.
O que ele faz
Você abre dizendo quantas histórias virão. Isso parece detalhe e não é: anunciar o número dá um mapa à plateia, e quem tem mapa relaxa e escuta melhor.
Depois entrega cada história fechada, sem ponte explicando a ligação com a anterior. E no fim, a plateia junta sozinha.
O risco do modelo está exatamente aí. Se as histórias não crescerem em alguma direção, a plateia junta e não encontra nada.
As três variantes
03a · Lista
As histórias provam a mesma coisa em contextos diferentes. A ordem é livre: dá para trocar a primeira pela terceira sem perder nada.
[[NOTACAO:historias-lista]]
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história 1 história 2 história 3 FECHO
└──── todas do mesmo tamanho, ordem livre ────┘
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É a mais fácil de montar e a mais fraca. É a única forma, entre os , com risco estrutural de terminar sem afirmar nada.
Use só se você tem uma afirmação muito clara e as histórias servem apenas de prova repetida.
03b · Escalada por aposta
Cada história cobra mais caro que a anterior. O que se perde cresce, e a resposta continua a mesma.
[[NOTACAO:historias-aposta]]
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perde pouco perde mais perde tudo FECHO
└──── a aposta sobe, a resposta não muda ────┘
↑
a última sustenta as outras.
ela remove o medo que
impedia as duas primeiras
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A ordem é fixa. Trocar destrói o modelo.
A última história é a mais importante, e não por ser a mais dramática. Ela remove a resistência que impedia a plateia de aceitar as duas primeiras.
03b · Escalada por raio
O que cresce não é a perda, é a quem a lição serve. O círculo abre a cada bloco.
[[NOTACAO:historias-raio]]
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você você por quem está o grupo a posição, FECHO
dentro do lado depois de você
└────────── o raio abre, de você até o que fica ──────────┘
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A ordem também é fixa, e por um motivo diferente: começar pelo último bloco seria pregar humildade a quem ainda não conquistou nada.
A regra que resume as três
A escalada é o que separa uma coletânea de histórias de uma palestra.
Se você não consegue dizer o que cresce da primeira para a última, você está na variante lista sem ter escolhido.
Quando usar
Use quando o seu repertório pessoal é forte. Este modelo pede histórias que só você pode contar.
Use quando o tempo é instável. É o modelo mais elástico que existe: se o evento atrasar, você corta uma história e a palestra continua de pé. Nenhum outro modelo aceita isso.
Use quando a plateia não te conhece. As histórias constroem sua credibilidade enquanto entregam o conteúdo.
Quando não usar
Se as suas histórias forem de acervo público. Se as três principais forem casos que qualquer um pode contar, a palestra é de todo mundo.
Se você não consegue definir a escalada. Nesse caso você vai cair na lista, e a lista raramente afirma.
Passo a passo
1 · Liste dez histórias suas
Dez, e todas com data, lugar e quem estava.
2 · Escreva, ao lado de cada uma, o que ela prova
Uma frase por história. História que não prova nada é enfeite e vai cair depois.
3 · Ache as que provam a mesma coisa
Você vai descobrir que três ou quatro provam a mesma coisa. Isso é bom: significa que você achou a sua afirmação.
4 · Escolha a variante
Este é o passo decisivo, e a pergunta é uma só: o que cresce?
Cresce o que você perde a cada história?
→ escalada por aposta
Cresce o tamanho do círculo de quem é servido?
→ escalada por raio
Nada cresce?
→ lista. Volte e procure a escalada antes de aceitar.
5 · Ordene
Na aposta, da menor perda para a maior. No raio, do menor círculo para o maior.
6 · Identifique a história que sustenta as outras
Na escalada por aposta, a última costuma ser a que remove a resistência. Teste assim: se eu tirar a última, as outras ainda convencem?
Se a resposta for não, você achou a peça que sustenta o conjunto, e ela precisa ser a mais bem contada.
7 · Anuncie o número na abertura
Diga quantas são. E, se quiser reduzir a expectativa, diga que não é grande coisa. Reduzir expectativa e entregar acima dela funciona melhor do que o contrário.
8 · Não construa ponte entre elas
A tentação de explicar a ligação é grande. Resista. A escalada já faz esse trabalho, e explicar a ligação tira da plateia o prazer de juntar sozinha.
9 · Feche nomeando o que não mudou
O fecho deste modelo não resume as histórias. Ele nomeia a coisa que permaneceu igual em todas, apesar de a aposta ter subido.
Exemplo montado
: turma de formação de novos gestores, quarenta minutos.
Variante: escalada por aposta.
Afirmação: o que você protege define o que você perde.
ABERTURA vou contar três histórias em que eu perdi alguma coisa.
Não são histórias de superação.
HIST 1 perdi um projeto por proteger um prazo.
O que sobrou: a relação com o time.
HIST 2 perdi uma promoção por proteger uma pessoa do time.
O que sobrou: a relação com o time.
HIST 3 perdi o cargo por proteger uma decisão que eu sabia certa.
O que sobrou: a relação com o time.
[a terceira é a que sustenta. Sem ela, as duas
primeiras parecem sorte de quem não arriscou muito]
FECHO em três histórias eu perdi coisas diferentes
e sobrou sempre a mesma.
Talvez ela nunca tenha sido consequência. Era a escolha.
As falhas mais comuns
Cair na lista sem perceber. Acontece com quem nunca escolheu a variante. Sintoma: as histórias poderiam vir em qualquer ordem.
Explicar a ligação. Dizer "e essa história se conecta com a anterior porque" mata o modelo.
A melhor história em primeiro. Instinto natural e erro grave: se a primeira é a mais forte, a escalada desce em vez de subir.
Contar demais. Cada história deve durar entre um e três minutos. Detalhe demais afoga o argumento.
Histórias de tema, não de prova. Se você escolheu as histórias porque combinam com o tema, e não porque provam a mesma coisa, o acúmulo não acontece.
Para estudar
Escalada por aposta: a ficha 03, do discurso de formatura de Stanford em 2005. Três histórias, a perda crescendo, e a terceira removendo o medo que impedia as duas primeiras.
Escalada por raio: a ficha 05, das cinco lições do Simon Sinek. Cinco blocos, o círculo abrindo de você até a posição que fica depois de você.
Nos dois casos, repare que não existe ponte entre os blocos e mesmo assim eles formam um argumento único.